Parlamentares de SP mandam R$ 7,7 milhões em emendas a ONGs ligadas à produtora de filme de Bolsonaro

Recursos públicos provenientes de emendas parlamentares enviados a organizações ligadas à produtora cinematográfica Go Up Entertainment, responsável pelo filme Dark Horse – cinebiografia do ex‑presidente Jair Bolsonaro (PL) – entraram na mira do Supremo Tribunal Federal (STF).

Deputados e vereadores de São Paulo já encaminharam ao menos R$ 7,7 milhões para entidades que fazem parte do mesmo grupo oubedecem a uma mesma estrutura de gestão, montando um cenário que levou o ministro Flávio Dino a abrir uma apuração preliminar.

Ministro do STF abre investigação

Na última sexta‑feira (15/5), o ministro Flávio Dino determinou a abertura de uma investigação preliminar para apurar possíveis irregularidades na destinação de emendas para projetos ligados ao “ecossistema” de entidades controlado por Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora Go Up Entertainment.

A apuração busca esclarecer se verbas públicas destinadas na origem a projetos sociais, educacionais e culturais acabam sendo redirecionadas, indiretamente, para custear a produção cinematográfica privada Dark Horse.

São citados no procedimento, entre outros, o Instituto Conhecer Brasil (ICB), a Academia Nacional de Cultura (ANC) e a Conhecer Brasil Assessoria, todas vinculadas em denúncias à mesma produtora de Bolsonaro.

A investigação mira recursos enviados via emendas de parlamentares do PL, como os ex‑deputados federais Alexandre Ramagem (RJ) e Carla Zambelli (SP), além dos deputados federais Marcos Pollon (MS), Bia Kicis (DF) e Mario Frias (SP).

Emendas de Frias e de derivação bolsonarista

O próprio Mario Frias, ex‑ministro da Cultura e hoje deputado federal pelo PL, é um dos focos mais visíveis da apuração.

Segundo a denúncia da deputada Tabata Amaral (PSB‑SP), que deu origem ao pedido de investigação de Flávio Dino, Frias direcionou R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil: R$ 1 milhão para um projeto de “letramento digital” e outros R$ 1 milhão para um projeto esportivo.

O repasse é questionado porque Frias também atua como produtor executivo e roteirista de Dark Horse, criando um cruzamento entre a destinação de recursos públicos e a cadeia de produção da obra cinematográfica.

A Câmara dos Deputados afirmou, em resposta ao STF, que, em análise técnica, as emendas de Frias seguem a legislação vigente, mas o processo ainda está sob análise do ministro Dino, que intimou o parlamentar a prestar esclarecimentos.

Deputados estaduais e vereadores de SP

No âmbito estadual, um levantamento do Metrópoles aponta que, já no final de 2023, a deputada estadual Valéria Bolsonaro (PL) destinou emenda de R$ 100 mil ao Instituto Conhecer Brasil para aquisição de equipamentos.

Outro deputado bolsonarista da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), Lucas Bove (PL), indicou emenda de R$ 213 mil para o mesmo instituto, voltada a projetos esportivos, mas o repasse teria sido bloqueado por razões técnicas.

Já o deputado Gil Diniz (PL), um dos principais aliados de Eduardo Bolsonaro em São Paulo, destinou R$ 200 mil à Academia Nacional de Cultura para custear parte da produção da série documental Heróis Nacionais – filhos do Brasil que não se rende.

O mesmo destino teve uma emenda de R$ 1 milhão enviada por Carla Zambelli, o que reforça a suspeita de fragmentação de repasses para evitar a concentração de grandes valores em um único beneficiário.

Ainda no âmbito municipal, o ex‑vereador Atílio Francisco encaminhou emendas que somam quase R$ 3,6 milhões, segundo a denúncia de Tabata e reportagem do The Intercept Brasil, alegadamente para um evento literário gospel e outro evento de dança.

Além disso, pelo menos outros dois vereadores de São Paulo tiveram emendas liberadas para a Conhecer Brasil em 2025: Cris Monteiro (Novo), com R$ 100 mil para oficinas tecnológicas voltadas a jovens, e André Santos (Republicanos), com R$ 750 mil para a realização de um congresso de inovação em educação.

Jornalismo O Janelão

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