Professor Evandro Accadrolli
Mestre e especialista em Educação — Colunista do portal O Janelão
A indisciplina nas salas de aula brasileiras voltou a ocupar o centro do debate sobre qualidade da educação. Enquanto gestores e professores lutam para aprofundar conteúdos e melhorar índices de aprendizagem, a falta de respeito e regras claras torna muitas escolas ambientes onde ensinar e aprender se tornam tarefas cada vez mais difíceis.
Para o professor Evandro Accadrolli, mestre e especialista em Educação, o problema não é apenas pedagógico: é cultural e estrutural.
“Buscamos melhores resultados acadêmicos, mas esquecemos que, sem respeito, não há condições para que a aula aconteça”, afirma. Segundo ele, é urgente transformar a cultura educacional para preservar o tempo de ensino e proteger os profissionais que atuam na escola.
O que o Japão ensina
Accadrolli aponta o exemplo do Japão como referência de como a formação do caráter acompanha, e precede, a cobrança por desempenho. Nos primeiros anos, a ênfase está em boas maneiras, responsabilidade coletiva e convivência — fundamentos que criam condições para o aprendizado posterior. Entre práticas destacadas está o Osoji: alunos e professores dividem a limpeza de salas, corredores e banheiros em sistema de rodízio, o que reforça a ideia de espaço público como patrimônio comum. Sem refeitório central, as turmas também organizam o próprio almoço, servindo-se e mantendo o ambiente em ordem.
Essas rotinas não são panaceia nem modelo a ser copiado sem adaptação, ressalta Accadrolli.
“Trata-se de reconhecer que sem autoridade docente e corresponsabilidade da família e do aluno, não há qualidade”, explica. A experiência japonesa mostra que disciplina e participação coletiva reduzem conflitos e ampliam o tempo efetivo de aula.

Impacto sobre profissionais da educação
A indisciplina tem efeitos diretos sobre a saúde e a permanência dos professores na carreira. Manter a qualidade de uma aula exige preparação, atualização e esforço emocional. Somar a isso o desgaste de conter desrespeitos constantes leva ao esgotamento profissional. Muitas escolas perdem docentes qualificados por falta de condições mínimas de trabalho, com relatos de desânimo, ansiedade, depressão e adoecimento.
“Não podemos exigir dos professores que compensem, sozinhos, falhas de gestão, de família ou de políticas públicas”, alerta Accadrolli.
Para ele, proteger os profissionais e garantir aulas produtivas passa pela criação de mecanismos institucionais que lidem com a indisciplina de forma previsível e justa.
Responsabilidade compartilhada
A solução, segundo o colunista, exige uma atuação conjunta. Estudantes, famílias, unidades escolares e poder público devem compartilhar responsabilidades. Entre as medidas sugeridas estão:
- Legislação e normas claras sobre convivência, com aplicação constante e proporcional.
- Planos de ação escolares que envolvam família e comunidade na construção de regras.
- Apoio psicológico e programas socioemocionais para alunos e docentes.
- Formação continuada para professores em gestão de sala e estratégias de engajamento.
- Atuação efetiva dos órgãos competentes quando houver infrações que extrapolem a esfera escolar.
“Escolas precisam de ferramentas para responsabilizar comportamentos que prejudicam o funcionamento da comunidade escolar”, afirma Accadrolli.
Ele reforça que as medidas punitivas isoladas não são suficientes; é necessário combinar prevenção, orientação e, quando preciso, consequências aplicadas com justiça.
Preservar o tempo de aula é condição de qualidade
Uma educação de qualidade exige conteúdos consistentes, professores preparados e tempo de aula preservado. Porém nenhuma dessas condições se sustenta sem respeito e disciplina. Quando cada integrante da comunidade escolar assume sua parcela de responsabilidade, a escola deixa de ser apenas um lugar de passagem e se fortalece como espaço de aprendizagem, convivência e formação de caráter.
Para o colunista, a transformação passa por políticas públicas que promovam corresponsabilidade, formação docente e apoio às famílias.
“Se não mudarmos a cultura educacional, continuaremos a cobrar resultados de uma escola que não tem as condições básicas para ensinar”, conclui.

