Operações policiais deflagradas na manhã desta terça-feira (4) resultaram no desmantelamento de um plano articulado em grupos de mensagens para a execução de atentados em Brasília durante o período eleitoral. As ações, batizadas de Rede Interrompida e Lívia, envolveram a Polícia Civil do Distrito Federal em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública e tiveram apoio de forças policiais estaduais, entre elas o Gaeco em Santa Catarina.
Segundo o secretário nacional de Direitos Digitais, Victor Fernandes, a Operação Rede Interrompida identificou dois grupos no Telegram onde integrantes trocaram informações sobre o planejamento de ataques na capital federal. De acordo com o relatório das investigações, os membros mapearam prédios na área central de Brasília — catalogando localização dos ministérios, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF) — e chegaram a compartilhar a planta baixa do Palácio do Planalto, apontado como alvo prioritário. O calendário das ações indicava outubro como mês previsto para a execução dos atos, dentro do período eleitoral.
“As apurações identificaram grupos que compartilharam informações sobre planejamento de atentados na cidade de Brasília, inclusive com possíveis interesses envolvendo a Esplanada dos Ministérios”, afirmou Fernandes em coletiva.
Entre o material trocado estavam manuais de fabricação de explosivos, estratégias de recrutamento e discursos de ódio, especialmente contra mulheres em posições de autoridade.
Investigações e alvos em SC
No total, mandados de busca e apreensão foram cumpridos em cinco estados: Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Pernambuco e Rio Grande do Sul. Em Santa Catarina, as ações ocorreram nas cidades de Blumenau e Corupá. O Gaeco apoiou as diligências, que fazem parte de um esforço coordenado pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF). Ao todo, oito pessoas são investigadas, com idades que variam entre 19 e 31 anos; as identidades não foram divulgadas pelas autoridades.
As autoridades informaram que os investigados utilizavam o Telegram para disseminar conteúdos neonazistas, antissemitas e misóginos. Em paralelo, a Operação Lívia, que atuou no Discord, desarticulou grupos que promoviam violência contra crianças e adolescentes, ampliando o alcance das investigações para redes de abuso e incitação à violência.
Um dos alvos das buscas é um seminarista vinculado a um mosteiro em Pernambuco. Agentes realizaram buscas no alojamento usado por ele após identificarem participação ativa nas discussões sobre a estruturação de uma rede extremista de alcance nacional.
Como foram identificados os grupos
As investigações partiram de um relatório técnico do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab), do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O material apontou a articulação nas plataformas digitais e foi encaminhado à PCDF, que iniciou procedimentos para localizar e identificar os responsáveis pelas mensagens e pelo compartilhamento de material técnico que poderia viabilizar atentados.
Em coletiva, representantes do Ministério da Justiça e da Polícia Civil do DF disseram que o foco foi interromper a organização antes que chegasse ao estágio de execução. Entre os elementos que motivaram a ação estão a troca de plantas, a intenção de ataques durante debates do segundo turno e o compartilhamento de instruções para montagem de artefatos explosivos.
Repercussão e medidas preventiva
Autoridades reforçaram a importância do monitoramento das redes digitais e da cooperação entre esferas federal e estaduais para prevenir ações violentas, especialmente em períodos sensíveis como as eleições. O Ministério da Justiça destacou ainda o papel do Ciberlab na identificação precoce de ameaças e na produção de relatórios técnicos que subsidiaram as operações.
A PCDF informou que as investigações continuam em curso e que novas diligências podem ser realizadas conforme necessidade. As equipes trabalham agora na análise dos materiais apreendidos, que incluem conversas, arquivos e possíveis elementos que indiquem redes de apoio ou planos complementares.
A investigação também levantou preocupação sobre a circulação de ideologias extremistas entre jovens — muitos dos investigados têm menos de 31 anos — e sobre a capacidade de grupos digitais de transformar radicalização em ameaça concreta à segurança pública.
Até o momento, as forças de segurança não confirmaram prisões em âmbito nacional ligadas às operações desta terça-feira, apenas o cumprimento dos mandados de busca e apreensão. As autoridades devem divulgar atualizações conforme a apuração avança.


