“Laranjal”: PF apura rede que liga Flávio Bolsonaro, Banco Master, INSS e festas de Vorcaro

Uma rede de empresas, contas bancárias, jatinhos, imóveis de luxo e repasses milionários colocou o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) no centro de uma trama investigada pela Polícia Federal. O caso conecta o advogado Willer Tomaz, investigado no esquema dos descontos irregulares contra aposentados do INSS, ao ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e levanta suspeitas que alcançam o ministro do STF e presidente do TSE, Kassio Nunes Marques.

A reportagem do “Revelando”, de Fábio Porchat, sintetizou o conjunto de apurações sob o rótulo de “laranjal”: empresas e bens que, no papel, pertenceriam a terceiros, enquanto os verdadeiros interessados não apareceriam formalmente como donos. A expressão é jornalística e acusatória — juridicamente, ninguém foi condenado por isso.

Willer Tomaz: dinheiro nos livros e nas bets

Willer Tomaz é advogado em Brasília e alvo da Operação que apura o desconto não autorizado de valores de aposentados e pensionistas do INSS por meio de associações. Em buscas no escritório dele, a PF encontrou maços de dinheiro escondidos em livros-cofre e uma máquina de contar cédulas.

A suspeita central é que Tomaz atuasse como uma espécie de central financeira e patrimonial: empresas dele movimentariam recursos, pagariam despesas e administrariam bens em nome de terceiros, dificultando a identificação dos reais beneficiários. A PF investiga se isso caracteriza lavagem de dinheiro.

Tomaz também chamou atenção por movimentações em sites de apostas. Segundo a Receita Federal, ele fez 2.145 depósitos na plataforma Blaze, somando R$ 325,3 milhões, e recebeu R$ 180,3 milhões em 2.733 saques — um saldo negativo de R$ 145 milhões. No total, as movimentações dele em bets teriam chegado a cerca de R$ 5 bilhões.

A defesa sustenta que tudo ocorreu por Pix, de forma rastreável, e atribui os valores ao vício em jogo. A Receita, porém, apura possíveis irregularidades da própria plataforma no período.

Flávio como “usuário master”

O principal documento que aproxima Flávio Bolsonaro de Willer Tomaz é o cadastro do senador como “usuário master” de uma conta da Alcazar Holdings, empresa administrada pelo advogado. Esse perfil, segundo a PF, conferia acesso elevado e poder de gerenciamento sobre a conta.

Para a corporação, esse acesso, somado a viagens, empresas e imóveis compartilhados, sustenta a hipótese de uma “participação societária de fato” — ou seja, Flávio seria, na prática, sócio de Tomaz, ainda que não aparecesse formalmente nos contratos.

O cadastro teria sido excluído em maio de 2025, um mês depois da primeira operação da PF contra a fraude do INSS. Flávio afirma que nunca teve conta nessas condições e que o próprio e-mail de exclusão comprova que o registro era indevido. Tomaz diz que os dois são apenas amigos.

O jato, a mansão e a Alcazar

A Alcazar Holdings não aparece só na conta bancária. A empresa era sócia da companhia proprietária de um jato executivo usado por Flávio, Willer Tomaz e Daniel Vorcaro. Em janeiro de 2025, Flávio voltou da Flórida a Brasília nesse avião, acompanhado da mulher, das filhas e de Tomaz.

A mesma rede de empresas aparece em um imóvel de luxo em Angra dos Reis, alvo de disputa judicial envolvendo o jogador Richarlison, que afirma ter investido R$ 10 milhões no negócio e perdido a posse na Justiça. O imóvel teria ficado registrado em nome da WT, empresa ligada a Tomaz.

Há ainda um apartamento de luxo em São Paulo usado por Flávio na campanha, vendido pelo cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, à WT por valor inferior ao pago originalmente. O registro teria ocorrido no mesmo dia em que Zettel foi preso.

O filme “Dark Horse” e os R$ 134 milhões

Outra frente da investigação envolve o filme “Dark Horse”, produção biográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo a PF e reportagens do Intercept e da Folha, Flávio negociou diretamente com Vorcaro um aporte de US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões na época — para viabilizar a obra.

Áudios e mensagens atribuídos a Flávio mostram que ele cobrava e acompanhava a liberação das parcelas. A PF estima que cerca de R$ 62 milhões (US$ 12,3 milhões) tenham sido enviados entre fevereiro e setembro de 2025.

O senador confirmou que pediu o financiamento, mas nega irregularidade e afirma que o contrato não foi cumprido. A PF investiga se houve lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção ativa e passiva e organização criminosa.

No papel, o tesoureiro do instituto ligado à produtora do filme seria um eletricista, que teria apenas emprestado o nome — mais um exemplo, segundo a narrativa de Porchat, da estrutura de “laranjas”.

Festas de Vorcaro e o ministro Kassio
Daniel Vorcaro, preso desde março nas apurações sobre o Banco Master, também aparece no centro de um esquema de festas privadas. Mensagens obtidas por investigadores e divulgadas pela imprensa descrevem encontros com mulheres contratadas, incluindo refugiadas estrangeiras, organizados e pagos pelo banqueiro.

Nessas mensagens, aparece a referência a um “ministro” presente em uma das festas, com descrições que apontam para Kassio Nunes Marques. A PF apura se as menções se referem de fato ao ministro, mas as mensagens, isoladamente, não comprovam sua presença.

Há ainda suspeitas de pagamentos do Banco Master a uma consultoria ligada a um amigo de Kassio, com repasses posteriores ao filho do ministro, Kevin Marques, na ordem de R$ 300 mil. Kassio nega qualquer irregularidade, diz que julgou conforme a lei e afirma que o filho nunca recebeu recursos do banco.

A indicação de Kassio ao STF

Segundo reportagem da Folha citada por Porchat, Flávio Bolsonaro e Ciro Nogueira teriam influenciado a escolha de Kassio Nunes Marques para o STF durante o governo Jair Bolsonaro. A indicação teria contado com o respaldo de dois advogados: Frederico Wassef, advogado da família Bolsonaro, e o próprio Willer Tomaz.

O contexto era sensível: o Supremo decidiria sobre o foro de Flávio e sobre as provas do caso das rachadinhas no Rio. Um ano depois da posse de Kassio, o STF anulou os relatórios do COAF que sustentavam a investigação contra Flávio — e o ministro votou a favor da anulação.
Sem esses relatórios, o Ministério Público do Rio pediu o fim do caso. Flávio não foi julgado, e nenhum juiz concluiu que as acusações eram falsas — o que ocorreu foi o cancelamento das provas.

E o Lulinha?

O filho do presidente Lula, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, também aparece nas apurações derivadas do esquema do INSS. A PF investiga suposto tráfico de influência em favor de empresas de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”, com quem Lulinha teria mantido parceria empresarial e realizado viagens, incluindo uma a Portugal.

Uma lobista amiga dele, Roberta Luchsinger, teria recebido cerca de R$ 1 milhão de uma empresa de fachada ligada ao “careca”, com aparente autorização para agir em nome de Lulinha.

Até o momento, porém, Lulinha não foi indiciado nem denunciado. Relatórios internos da PF apontam que não há, até agora, indícios de envolvimento direto dele nos descontos irregulares, e a defesa nega qualquer irregularidade.

O que está documentado — e o que é suspeita

Documentado pela PF: cadastro de Flávio como “usuário master” na Alcazar Holdings; vínculos empresariais entre Tomaz, Vorcaro e o jato; movimentações bilionárias de Tomaz em bets.

Sob investigação: possível participação societária de fato de Flávio na empresa de Tomaz; lavagem de dinheiro; financiamento do filme “Dark Horse”; festas de Vorcaro.

Sem confirmação judicial: presença de Kassio Nunes Marques nas festas; repasses ao filho do ministro; papel exato de Flávio na estrutura de “laranjas”.
Negado pelos investigados: Flávio, Tomaz, Vorcaro e Kassio negam todas as irregularidades apontadas.

O caso segue em apuração no STF e na PF, com pedido de prorrogação de prazo para concluir as investigações. Até agora, ninguém foi condenado pelas suspeitas mais recentes, e a apuração deve se estender pelos próximos meses.

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