Por Professor Oséias Alves Pessoa
Diretor-geral da UDESC de Balneário Camboriú.
Há uma diferença profunda entre ser estudioso e ser gênio. O estudioso aprende, acumula, compara, organiza, repete, melhora. O gênio, não. O gênio parece tocar uma zona que não se ensina inteiramente. Há nele uma espécie de iluminação súbita, quase divina, uma capacidade de enxergar o que os demais ainda estão tentando formular.
Na política, essa diferença é ainda mais evidente. Há políticos preparados, disciplinados, estudiosos da técnica, da comunicação e da gestão. E há aqueles que, mesmo sem todos os atributos formais da aparência pública, carregam uma força rara: o instinto político.
Na política catarinense, entre os vivos, é possível reconhecer algumas figuras marcantes. Leonel Pavan é uma delas.
Pavan não é um político de embalagem. Não parece ter sido moldado por consultores de imagem, nem por manuais de etiqueta televisiva. Seu modo é direto, às vezes áspero; sua fala pode parecer enroscada; seu temperamento é quente. É, por assim dizer, um homem mercuriano: rápido, inquieto, impaciente com a falsidade das aparências e sempre em movimento.
Não leva desaforo para casa. Não fala como quem pede licença ao protocolo. Fala como quem ocupa o espaço inteiro.
E, no entanto, ou talvez exatamente por isso, há nele um traço que precisa ser reconhecido: Pavan possui um toque de genialidade política.
Esse toque apareceu, com rara nitidez, durante a solenidade em que recebeu o governador Jorginho Mello para a assinatura do convênio da duplicação da SC-102, em Camboriú. Quem acompanhou sua fala com atenção percebeu ali não apenas um discurso, mas uma aula prática de política em estado bruto.
Pavan começou por onde poucos começariam: criticando o próprio vídeo institucional. Enquanto o material de marketing apresentava Camboriú como uma cidade quase perfeita, ele puxou o discurso de volta para o chão da realidade. Disse, em essência, que Camboriú não é feita apenas de imagem bonita. Tem dificuldades, carências, limitações e uma renda per capita menor do que a de outros municípios da região.
Esse início é genial porque rompe com a lógica comum da política contemporânea. Em vez de vender uma cidade idealizada, Pavan apresentou uma cidade real. E, ao fazer isso, criou autoridade. O povo reconhece a verdade quando a escuta. A propaganda pode emocionar, mas a realidade convence.
Depois, ele fez o movimento seguinte: mostrou que, apesar das dificuldades, a cidade avançou. Falou da arrecadação, das entregas, das obras, da educação, da capacidade de fazer mesmo quando o dinheiro é pouco. Quando menciona que Camboriú atende muitos alunos e, ainda assim, não aceita escola com goteira, ele não está apenas citando um dado administrativo. Está construindo uma tese política: eficiência não nasce somente da abundância de recursos; nasce da liderança.
Esse é o ponto central. Há gestores que se escondem atrás da falta de dinheiro. Pavan transforma a escassez em argumento moral. Ele parece dizer: se fizemos isso com pouco, imaginem o que faremos com mais.
E então vem o terceiro movimento, talvez o mais forte: a passagem do presente para o futuro.
Todo político experiente sabe que obra entregue é importante, mas promessa crível de futuro é ainda mais poderosa. Pavan enumera o que fez, mas não fica preso ao passado. Ele usa o passado como prova de capacidade. A obra realizada vira credencial para pedir mais. O feito vira fundamento para a ambição.
Quando se dirige ao governador e diz, em linguagem popular, que se houver “o resto do tacho” é para mandar para Camboriú, ele faz mais do que uma brincadeira. Ele cria uma imagem. O tacho é simples, doméstico, compreensível. Todo mundo entende. Não é uma metáfora sofisticada; é melhor do que isso: é uma metáfora popular.
E quando afirma que, se for preciso, se ajoelha para conseguir recursos para Camboriú, Pavan toca em algo ainda mais profundo. Na política comum, ajoelhar-se pode parecer humilhação. Na política de Pavan, torna-se gesto de representação. Ele não se ajoelharia por vaidade pessoal, mas por uma cidade. Não seria submissão; seria disposição de sacrificar o próprio orgulho em nome de uma causa pública.
Esse é o tipo de frase que um marqueteiro talvez evitasse. Mas é justamente por isso que funciona. Porque não parece calculada. Parece nascida do temperamento.
A genialidade política, quando existe, não está apenas na beleza da fala. Está na capacidade de transformar defeitos aparentes em força pública. A fala enroscada vira autenticidade. A dureza vira coragem. O temperamento quente vira energia. A ausência de polimento vira proximidade. O improviso vira verdade.
Pavan não fala como um acadêmico. Não fala como um diplomata. Não fala como um tecnocrata. Fala como um político de rua, de praça, de obra, de palanque, de bastidor e de povo. Fala com o corpo inteiro.
Ao final, quando projeta Camboriú como uma cidade destinada a ser maior, melhor e capaz de contribuir com Santa Catarina, ele fecha o arco do discurso. Começou com a realidade dura. Passou pelas entregas possíveis. Pediu apoio para o futuro. E encerrou com grandeza.
Essa é a engenharia invisível da política.
O estudioso pode assistir a esse discurso e decompor suas partes: diagnóstico, contraste, prestação de contas, pedido, símbolo, promessa. Pode fazer anotações, identificar técnicas, copiar frases, estudar a construção narrativa. Tudo isso é útil. Tudo isso ensina.
Mas há algo que não se copia.
O gênio político não está apenas no que se diz. Está no momento exato em que se diz. Está no tom. Está no risco. Está na coragem de parecer inadequado para ser verdadeiro. Está na capacidade de falar ao governador, às autoridades, à imprensa e ao povo ao mesmo tempo, sem perder o centro da mensagem.
Leonel Pavan pode desagradar. Pode irritar. Pode ser excessivo. Pode parecer bruto aos olhos mais acostumados à política plastificada. Mas é preciso reconhecer: nele há um desses traços raros que não se fabricam em laboratório de comunicação.
Há políticos que estudam a política. Há políticos que administram a política. E há políticos que parecem nascer com a política no sangue.
Pavan pertence a essa última categoria.
Por isso, a lição talvez seja humilde: não se deve tentar imitar um gênio. A imitação vira caricatura. O que se pode fazer é observar, copiar alguns gestos, aprender a lógica do movimento e compreender a estrutura da intuição.
O estudioso aprende com o gênio. Mas o gênio, quando aparece, apenas acontece.

