Por Professor Evandro Accadrolli Colunista no tema Educação
Evandro é Mestre e especialista em Educação
O adoecimento dos professores da rede pública de Santa Catarina deixou de ser um problema individual para se tornar uma questão estrutural da educação. O que antes era tratado como cansaço pontual hoje se apresenta como um dado consistente de pesquisa, com impacto direto na sala de aula e na saúde dos profissionais.
As pesquisas revelam o tamanho do problema
A pesquisa “Radiografia da Saúde Docente em Santa Catarina”, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), revelou um cenário alarmante: mais de 60% dos professores entrevistados relataram problemas relacionados à saúde mental. Sobrecarga de trabalho, condições inadequadas, insegurança profissional e acúmulo de tarefas administrativas aparecem entre os fatores associados ao adoecimento.
Outro estudo, realizado com 52 professores de uma escola estadual de Tubarão e publicado na Revista Brasileira de Neurologia e Psiquiatria, identificou transtornos mentais comuns em 50% dos participantes. Ansiedade, depressão, distúrbios do sono e síndrome de burnout são resultados previsíveis de uma rotina que exige mais do que o tempo e as condições disponíveis permitem.
Burocracia que tira tempo da aula
Além do planejamento e do atendimento aos estudantes, o professor catarinense responde por um volume crescente de atividades administrativas: preenchimento de sistemas, elaboração de relatórios e formulários, aplicação de avaliações e realização de registros em diferentes plataformas.
Esse acúmulo reduz o tempo destinado à preparação pedagógica, estende a jornada de trabalho e intensifica o desgaste fisico e emocional. O resultado é duplo: o professor se esgota, e o aluno perde em qualidade de ensino.
Quando o professor adoece, a educação perde
O impacto não fica restrito ao indivíduo. Sob estresse elevado e exaustão, ficam comprometidos o planejamento, a criatividade e o acompanhamento pedagógico. A consequência direta é a queda na qualidade do processo de ensino-aprendizagem, com prejuízos para os estudantes.
Nenhuma política educacional se sustenta com professores adoecidos. Qualidade exige estabilidade, vínculo e condições mínimas de trabalho.
O O afastamento em massa cobra um preço alto
O reflexo mais visível dessa sobrecarga é o elevado número de profissionais afastados em razão do adoecimento. Cada licença pode representar perda financeira para o servidor, que pode ter sua renda reduzida durante o afastamento, além de impactos emocionais para toda a equipe, que precisa redistribuir tarefas, e para os estudantes, que enfrentam a interrupção dos vínculos estabelecidos.
Para o Estado, o custo se repete na substituição de profissionais, na quebra da continuidade pedagógica e no aumento dos gastos com saúde ocupacional. É um ciclo caro que com políticas públicas sérias é evitavel.
O caminho passa por desburocratizar e valorizar
Reduzir a burocracia, reorganizar as demandas administrativas, simplificar as plataformas, eliminar registros redundantes e criar políticas efetivas de prevenção ao adoecimento são medidas concretas de valorização. Junto a isso, é preciso reduzir a jornada e ampliar o tempo remunerado destinado ao trabalho pedagógico e fortalecer as ações de promoção da saúde dos trabalhadores em educação.

