O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado na eleição presidencial, deixou o Brasil e seguiu para os Estados Unidos, segundo reportagem do Jornal Nacional e confirmações posteriores da imprensa internacional. A saída ocorreu depois de ele descumprir determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF, de entregar os passaportes até as 11h de terça-feira (27), no âmbito de investigações da Polícia Federal sobre suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
O que aconteceu
Na noite de domingo (25), logo após a divulgação do resultado do segundo turno, a Polícia Federal pediu ao STF a apreensão dos passaportes de Flávio, alegando risco concreto de fuga. O ministro Alexandre de Moraes determinou a entrega dos documentos — incluindo passaportes comuns e diplomáticos — e cancelou-os no sistema oficial, fixando prazo até as 11h de terça.
Em vídeo publicado nas redes sociais na segunda-feira, Flávio disse ter sido abordado por policiais federais após visitar o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar. Ele afirmou que não pretendia deixar o país e que entregaria os passaportes para se defender.
Na terça, porém, agências e jornais como Reuters, The New York Times e The Washington Post informaram que o senador havia deixado o Brasil rumo aos EUA. Uma autoridade do Departamento de Estado americano confirmou que o governo dos Estados Unidos concederia vistos a Flávio e à família, permitindo a entrada no país.
A PF informou que Flávio não passou por nenhum ponto regular de migração brasileira. A hipótese de que ele tenha cruzado para a Argentina também não foi confirmada: a Direção Nacional de Migrações argentina afirmou não ter registro oficial de entrada dele no país.
O que a PF investiga
A investigação principal envolve Flávio e o advogado Willer Tomaz. Segundo a PF, e-mails encontrados no celular de Willer indicam que Flávio foi cadastrado como usuário “master” de uma conta bancária da Alcazar, empresa registrada na Ilha da Madeira, em Portugal. Esse tipo de acesso confere poderes amplos de administração e movimentação financeira.
A polícia apura se houve movimentação financeira incompatível com as atividades declaradas de Willer Tomaz. No ano passado, segundo dados citados pelo Jornal Nacional, ele teria sido a pessoa que mais depositou dinheiro em plataformas de apostas (“bets”) no Brasil, movimentando cerca de R$ 5 bilhões; a PF investiga se parte desses recursos permaneceu em estruturas empresariais dele ou retornou por outras vias.
Outro inquérito apura o financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro. Em áudios atribuídos ao banqueiro Daniel Vorcaro, Flávio teria pedido R$ 134 milhões para a produção. Ele inicialmente negou o pedido e depois admitiu tê-lo feito, sustentando que não houve ilegalidade.
Segundo a PF, recursos ligados a Vorcaro saíram de uma empresa dele, a Entre Investimentos, e foram para o fundo americano Ravengate, administrado pelo advogado Paulo Calisto. O inquérito examina suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, além da possibilidade de parte dos valores ter custeado a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Há ainda uma terceira linha de apuração sobre a compra, em 2021, de uma mansão em Brasília avaliada em quase R$ 6 milhões. Metade do valor teria sido financiada pelo BRB, Banco de Brasília, com taxas abaixo da média praticada pela instituição; o banco também está envolvido no escândalo do Banco Master.
Negociações com Trump e terras raras
Antes da eleição, Flávio Bolsonaro já mantinha articulações com o ambiente político de Donald Trump envolvendo a exploração de terras raras brasileiras. Documento produzido em março previa diretrizes de parceria entre Brasil e EUA para a exploração desses minerais críticos “em eventual governo de Flávio Bolsonaro”, segundo informações divulgadas pela imprensa e objeto de apuração sobre possível interferência estrangeira na campanha.
O plano, associado à proposta “Prosperity Partnership”, previa posicionar o Brasil como principal fornecedor e polo de processamento de minerais críticos alinhado aos Estados Unidos, reduzindo a dependência de cadeias chinesas. O documento também indicava a construção de um sistema de abastecimento paralelo ao lado dos EUA.
Essas tratativas ganharam relevância política porque Flávio era aliado de Trump e porque o presidente americano voltou a afirmar, sem apresentar provas, que a eleição brasileira “pareceu fraudada”. As declarações ocorreram quase ao mesmo tempo em que o governo americano confirmava a concessão de vistos ao senador e à família.
Não houve fraude nas eleições
Não há evidências de fraude na eleição presidencial brasileira. O Tribunal Superior Eleitoral confirmou a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva ainda na noite de domingo, com 64.256.232 votos — 51,79% dos válidos — contra 59.826.041 votos, ou 48,21%, de Flávio Bolsonaro, uma diferença de cerca de 4,4 milhões de votos.
O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, afirmou ter “absoluta segurança de todo o processo eleitoral”, e a Procuradoria-Geral da República reconheceu o resultado. O próprio TSE desmentiu a versão de Flávio de que fiscais do PL teriam sido retirados da sala-cofre do tribunal.
Trump repetiu suspeitas de fraude sem apresentar qualquer prova. A alegação não foi corroborada por autoridades eleitorais brasileiras, pela PF ou por órgãos de controle, e o resultado foi formalmente reconhecido pelas instituições responsáveis pelo pleito.
O que vem a seguir
Flávio Bolsonaro segue como senador até janeiro do próximo ano, mas passa a responder aos inquéritos no STF. A PF segue investigando como ele saiu do país sem registro migratório regular, enquanto a defesa do senador nega ilegalidades e sustenta que os pedidos de dinheiro e as operações financeiras examinadas tinham finalidade lícita.
O caso coloca em evidência três frentes: o descumprimento de uma ordem judicial de entrega de passaportes, as suspeitas financeiras em torno de empresas, apostas e financiamento de filme, e a proximidade política de Flávio com o governo Trump — incluindo as negociações pré-eleitorais sobre terras raras.
Fonte: TV Globo e CNN Brasil

