“Estou em modo sobrevivência”: por que ter emprego na Argentina não basta para escapar da pobreza
Buenos Aires, Argentina – Reportagem especial.
Há dois anos, Antonela trabalha de segunda a sábado em um instituto privado de bioquímica na capital argentina. Ela atualiza agendas, organiza arquivos e gerencia autorizações médicas. É um emprego formal, com carteira assinada, mas o salário já não cobre as despesas que antes cabiam no mesmo valor.
“Custa para mim entender que, antes, eu podia levar uma vida que agora não posso”,
lamenta a jovem de 32 anos.
“Não consigo me manter com um único emprego. Não tomo como pessoal, entendo que isso acontece com muitas pessoas.”
A história de Antonela reflete a realidade de milhões de argentinos em “modo sobrevivência”.
Mesmo com trabalho fixo, a inflação persistente corrói o poder de compra, transformando o emprego em mera ponte para a informalidade ou múltiplas ocupações. Em março de 2026, a inflação mensal acelerou para 3,4% – o maior nível em um ano –, com acumulado de 32,6% em 12 meses. Embora menor que os picos de 2024 (acima de 200%), os preços seguem altos, liderados por educação e transporte.
Inflação e custo de vida: o ciclo vicioso
A retirada de subsídios a serviços públicos encareceu tarifas de energia, gás e transporte, pressionando orçamentos familiares. O poder de compra despenca: famílias cortam gastos essenciais, como proteínas na dieta. A carne bovina, ícone argentino, virou luxo – seu preço disparou, forçando mudanças radicais nos hábitos de consumo.
Na Patagônia, especialmente na província de Chubut, a carne de burro foi autorizada para venda no início de 2026 como alternativa barata.

É um consumo localizado, não generalizado pelo país, mas sinaliza o desespero:
“É o que cabe no bolso”, relatam moradores locais. Antonela, em Buenos Aires, opta por feijão e ovos, mas admite: “A mesa encolheu”.
Brasil x Argentina: quem está melhor?
Comparado ao Brasil, a Argentina patina. O país vizinho tem economia mais estável, com inflação baixa, PIB maior e reservas internacionais robustas. O Banco Mundial projeta crescimento argentino de 4,4% em 2025 (contra 2% no Brasil) e queda no risco-país, mas a recuperação é frágil.
Protestos, como o de 17 de setembro de 2025 contra o veto de Javier Milei à Lei de Financiamento Universitário, expõem tensões sociais.
Para Antonela, não há alívio à vista.
“Tenho dois empregos agora. Sobrevivo, mas não vivo.” A Argentina ensina uma lição dura: emprego formal não é sinônimo de estabilidade em tempos de hiperinflação.
Fontes: Dados do INDEC (inflação), Banco Mundial (projeções econômicas) e relatos locais.
Imagem: Mulher em protesto em Buenos Aires, 17/09/2025. Foto: Getty Images via BBC

