Por que gasolina, gás e outros itens ficaram mais caros?

Privatizações na Petrobrás e a perda de controle sobre preços durante o governo de Jair Bolsonaro (2019–2022) fez o Brasil  avançar em uma onda de privatizações e desinvestimentos em empresas ligadas à Petrobrás, como a BR Distribuidora, a Liquigás, ativos de refinaria e o sistema de transporte de gás (TAG/NTS).

Essas mudanças tiraram o Estado de posições centrais na cadeia de combustíveis e de gás de cozinha, o que, segundo associações de engenheiros, sindicatos e estudos econômicos, contribuiu para o aumento da margem de lucro das empresas privadas e para repasses menos benéficos ao consumidor final.

Petrobras vende R$ 8,6 bi em ações da BR Distribuidora e privatiza subsidiária

Antes da privatização da BR Distribuidora, a estatal exercia forte presença na distribuição de combustíveis, o que ajudava a segurar preços em muitos postos e a pressionar concorrentes privados a não elevar muito as margens.

Depois de concluída a venda, especialistas apontam que a margem de distribuição e revenda de gasolina cresceu cerca de 60% a 70% entre 2019 e 2022, muito mais que o próprio aumento do custo do derivado nas refinarias.

Em alguns cálculos, encher um tanque de 50 litros ficou cerca de R$ 65 mais caro em três anos, mesmo quando a Petrobrás reduziu o preço da gasolina.

Gás de cozinha: de item básico a negócio de alto lucroA Liquigás, principal distribuidora de gás de cozinha no país, foi vendida em processo conduzido pelo governo Bolsonaro, passando a integrar grupos privados.

Com isso, o setor de distribuição e revenda do gás passou a concentrar ganhos mais altos, enquanto o preço ao consumidor subiu em ritmo acima do insumo básico, conforme estudo da Agência Nacional do Petróleo (ANP).

Entre 2017 e 2022, o preço do botijão ao consumidor avançou mais rápido que o custo do produto na bomba, o que reforça a crítica de que parte do aumento vem de margens de distribuição e não apenas do gás em si.

Em 2020, o gás de cozinha ultrapassava R$ 100 em muitas cidades, mesmo com produção de parte do GLP nacional, enquanto a estatal exportava petróleo bruto e reduzia ativos de refino, ampliando a dependência de importações.

Outras privatizações e a ideia de “tirar o Estado de tudo”Além da BR Distribuidora e da Liquigás, o governo Bolsonaro avançou na venda de ativos como a TAG (Transportadora Gasbásica), além de refinarias e participação em empresas de gás, como a Gaspetro.

O discurso oficial era de “modernização” e “redução de interferência estatal”, com promessas de mais eficiência e investimento privado.

No entanto, críticos lembram que, ao retirar o papel regulador da Petrobrás e do Estado nessas áreas, o governo perdeu instrumentos para conter abusos de preço e para garantir preços mais equilibrados para combustíveis, gás e, em tese, também para energia (via Eletrobras) e serviços como os Correios.

Para muitos economistas e entidades de base trabalhadora, o resultado foi o aumento da concentração de mercado, com mais poder para grandes grupos privados e menos proteção para a população de baixa e média renda.

Impacto para a população e o debate atual

A combinação de margens de distribuição ampliadas, menor presença estatal na cadeia e maior dependência de preços internacionais reforçou a sensação de que, para as empresas, a conta fechou em lucro, mas para o consumidor brasileiro comum fechou em gasto mais alto.

Estudos recentes mostram que, mesmo quando a Petrobrás reduz preços nas refinarias, parte (ou grande parte) dessa queda não chega de forma proporcional ao consumidor final.

Hoje, o debate volta à tona com propostas de maior regulação nos setores de combustíveis, gás e energia, e também com a ideia de retomada de participação estatal em alguns ativos, como a volta da Petrobrás à distribuição de gás de cozinha.

Para muitos analistas, o episódio ilustra um dilema: privatizar pode enxugar a máquina estatal, mas, sem controle efetivo da concorrência e da margem privada, o “controle de preços” que antes dependia do setor público passa a ser apenas retórica.

Jornalismo O Janelão

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.