Por Professor Evandro Accadrolli – Mestre e especialista em Educação
Há mais de 20 anos estou dentro das escolas públicas de Santa Catarina. Nesse período, acompanhei muitas mudanças, mas poucas situações são tão preocupantes quanto ver trabalhadores da educação consumidos por dívidas, jornadas excessivas e insegurança financeira.
O Banco Central confirma que o endividamento das famílias brasileiras permanece elevado. Em março de 2026, as dívidas correspondiam a 49,8% da renda acumulada em doze meses, enquanto 29,3% da renda mensal estava comprometida com pagamentos de crédito.
Na educação, essa realidade ganha contornos ainda mais graves.
Mesmo com as recentes mudanças na tabela salarial do magistério catarinense, a valorização não pode ser medida apenas pelo valor anunciado no início da carreira. É preciso observar a progressão, o tempo de serviço, a formação, as perdas acumuladas e o que efetivamente sobra no contracheque.
Além das despesas familiares, muitos professores utilizam recursos próprios para trabalhar: computador, celular, internet, materiais pedagógicos, livros e cursos de formação. Quando a renda não acompanha todas essas exigências, o crédito consignado aparece como uma saída rápida. Mas aquilo que deveria resolver uma emergência pode comprometer o salário por anos.
Para completar a renda, muitos assumem novas turmas, ampliam a jornada ou procuram outro trabalho. Dobram as horas e multiplicam o cansaço. Enquanto diferentes países e empresas discutem formas de reduzir o tempo de trabalho e proteger a saúde dos profissionais, parte dos educadores segue tentando sobreviver acumulando funções.
O problema não termina no contracheque. Quando o boleto ocupa a cabeça, o planejamento da aula perde espaço. O desgaste atinge o professor, chega à escola e afeta as condições de aprendizagem dos estudantes.
Santa Catarina precisa enfrentar essa realidade com políticas concretas: carreira que reconheça formação e tempo de serviço, recuperação das perdas salariais, programas seguros de renegociação de dívidas, crédito com juros justos, apoio tecnológico e garantia de tempo adequado para planejamento e formação dentro da jornada.
Valorizar a educação não é apenas abrir escolas ou anunciar investimentos. É assegurar que quem ensina possa viver com dignidade.
Porque, quando o endividamento apaga o futuro do professor, é o futuro da educação que fica no escuro.

