Quatro institutos acertaram o segundo turno de 2022; Veritá foi o que mais errou — e volta a provocar controvérsia

Quatro dos principais institutos de pesquisa do país chegaram muito perto do resultado do segundo turno das eleições presidenciais de 2022, quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu Jair Bolsonaro (PL) por 50,90% a 49,10% dos votos válidos.

O desempenho das sondagens naquele pleito voltou a ganhar atenção após uma pesquisa recente do instituto Veritá que coloca Flávio Bolsonaro (PL) na frente em levantamento local — uma posição contrária ao consenso das demais casas e que reacende questionamentos sobre a credibilidade e o uso político de pesquisas.

Acertos e erros em 2022

Entre as 11 empresas que publicaram levantamentos na semana que antecedeu o segundo turno, oito apontavam vitória de Lula; quatro delas, porém, acertaram o resultado dentro da margem de erro.

O Instituto MDA, contratado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), foi o que mais se aproximou: deu 51,1% para Lula e 48,9% para Bolsonaro, com margem de erro de 2,2 pontos — muito próximo do resultado final (50,9% a 49,1%).

Também acertaram dentro da margem de erro: Datafolha (52% x 48%), Paraná Pesquisas (50,4% x 49,6%) e Quaest (52% x 48%). Outros institutos, como Ipec (ex-Ibope), AtlasIntel, Ipespe e PoderData, apontaram vitória de Lula, mas com índices fora da margem de erro.

Os maiores erros vieram exatamente de institutos que projetavam vitória de Bolsonaro: Brasmarket (53,6% x 46,4%), Futura/Modal (50,3% x 49,7%) e, em especial, o Veritá, que estimou 51,2% para Bolsonaro e 48,8% para Lula — o maior desvio entre as pesquisas divulgadas.

O que esses números dizem

Para analistas como Arilton Freres, diretor do Instituto Opinião, a proximidade entre pesquisas e resultado no segundo turno reduz a força da ofensiva de bolsonaristas que tentaram criminalizar levantamentos eleitorais. Quando os institutos que erraram ficam em minoria e outros se aproximam do resultado, argumenta Freres, fica mais difícil sustentar acusações generalizadas sobre fraude ou manipulação dos dados.

Veritá em 2026: novo levantamento e novas críticas

Quase quatro anos depois daquela projeção falha, o mesmo instituto Veritá publicou recentemente uma pesquisa que coloca Flávio Bolsonaro (PL) na liderança em determinada disputa regional.

O levantamento contrasta com sondagens de outros institutos, que apontam vitória e liderança para o candidato do Partido dos Trabalhadores, Luiz Inácio Lula da Silva, ou para aliados do partido, dependendo do recorte.

Publicar uma pesquisa que diverge do consenso não é, por si só, ilegal ou impróprio: a pluralidade de levantamentos ajuda a mapear tendências e incertezas.

O problema, apontam jornalistas e cientistas políticos, está menos na divulgação do dado isolado e mais na forma como ele é recebido e usado no debate público.

Impacto político e democrático das interpretações

Quando veículos jornalísticos divulgam pesquisas mostrando que um candidato está atrás, eles frequentemente são acusados por apoiadores adversos de serem “veículos de esquerda” ou de manipular informação. Esse tipo de reação tem dois efeitos prejudiciais para a democracia:

Deslegitimação da imprensa: ataques sistemáticos à imprensa corroem a confiança pública em veículos que cumprem função de informar.

Polarização da informação: quando resultados divergentes são classificados segundo um viés político ao invés de analisados metodologicamente, o debate público empobrece, e os cidadãos ficam mais suscetíveis a narrativas conspiratórias.

‘O caso Veritá ilustra essa dinâmica.”

Ao mesmo tempo em que a publicação de uma pesquisa fora do consenso pode ser coberta como parte do pluralismo informativo, sua repetida divergência — somada ao histórico de erro em 2022 — alimenta desconfiança e facilita narrativas que criminalizam pesquisas contrárias a um grupo político.

Como avaliar pesquisas corretamente
Para reduzir mal-entendidos e uso indevido de levantamentos, especialistas recomendam que jornalistas e leitores observem:
Método: amostra, técnica de coleta (telefone, presencial, online), margem de erro e data de campo.
Patrocínio: quem encomendou a pesquisa e possíveis conflitos de interesse.
Consistência: comparação com outras pesquisas recentes e com tendências temporais.
Transparência: se o instituto divulga questionário, calcificação da amostra e taxa de recusa.

Conclusão

A história das pesquisas em 2022 mostra que vários institutos se aproximaram bastante do resultado, enquanto alguns erraram de forma expressiva — caso do Veritá. A repetição de levantamentos que destoam do consenso não é, por si só, censurável, mas exige cuidado editorial e maior rigor metodológico na cobertura. Quando a resposta a pesquisas conflitantes é rotular veículos como “de esquerda” ou “de direita”, a democracia sai perdendo, porque o confronto de informações deixa de ocorrer em termos técnicos e passa a ser um instrumento de deslegitimação política.

Jornalismo O Janelão

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