Desembargador do TRF-2 e aliados de Flávio Bolsonaro são alvos em esquema de vazamento para o Comando Vermelho

Rio de Janeiro, 12 de março de 2026 – A Polícia Federal desencadeou nesta terça-feira (11) a segunda fase da Operação Unha e Carne, que investiga o vazamento de informações sigilosas da Operação Zargun para membros do Comando Vermelho (CV), uma das principais facções criminosas do país.

A ação resultou na prisão de um desembargador federal, um ex-secretário de Esportes e em buscas contra o deputado estadual licenciado Rodrigo Bacellar (União Brasil), presidente afastado da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

Um dos principais alvos da etapa é Bacellar, que já havia sido investigado em fases anteriores e voltou a ser foco de mandados de busca e apreensão. Agentes da PF cumpriram ordens judiciais em endereços ligados ao parlamentar no Rio de Janeiro e no Espírito Santo, onde há indícios de ramificações do esquema.

A operação mira uma rede de corrupção que envolveria autoridades, ex-gestores públicos e criminosos, com trocas de favores e dados sensíveis.Prisão do desembargador Macário Ramos Júdice Neto.

Alessandro Carracena, ex-secretário de Esportes do RJ

Em um dos desdobramentos mais impactantes, o desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), foi preso em flagrante em sua residência na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio.

Aos 62 anos, Júdice Neto é o relator do processo contra Thiego Raimundo dos Santos, conhecido como TH Joias, ex-deputado estadual detido por ligações diretas com o Comando Vermelho e lavagem de dinheiro para a facção.

Segundo as investigações da PF, o magistrado repassava informações sigilosas de procedimentos em andamento para beneficiar o grupo criminoso.

“Ele atuava como facilitador, vazando dados que permitiam a evasão de alvos e a obstrução da justiça”, detalha um relatório da força-tarefa acessado pela reportagem. A prisão preventiva foi decretada pela Justiça Federal.

Nova prisão: Alessandro Pitombeira e conexões com Flávio Bolsonaro
Outra detenção de peso foi a de Alessandro Pitombeira, ex-secretário estadual de Esportes do Rio de Janeiro, indicado ao cargo pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Pitombeira foi preso por suspeita de venda de influência e favorecimento ao Comando Vermelho. Amigo próximo de Gutemberg Fonseca – outro nome ligado ao entorno político de Flávio Bolsonaro e que também aparece em investigações com contatos com o CV –, Pitombeira integra a teia revelada pela operação.

Esses nomes circulam na mesma rede que envolve TH Joias, com indícios de interseções políticas antigas. Flávio Bolsonaro, que já foi alvo de escândalos como o esquema de “rachadinha” em seu gabinete na Alerj e homenagens a figuras ligadas à milícia (como Adriano da Nóbrega), não é formalmente investigado nesta fase, mas suas conexões com os alvos reacendem debates sobre infiltrações no meio político fluminense.

A conexão ‘carne’: freezer de picanhas, frigorífico suspeito e laços entre TH Joias e Bacellar

Um fio condutor da investigação é o suposto pagamento de propina por meio de carne premium. Agentes encontraram um freezer lotado de picanhas de alto valor em endereços ligados a TH Joias, com rastros levando a um frigorífico sob suspeita no interior do Rio.

A PF apura se esses “presentes” eram contrapartida por vazamentos da Operação Zargun – que desarticulou células do CV no tráfico de armas e drogas – e se conectam Bacellar ao ex-deputado.

Mensagens interceptadas indicam que Bacellar teria intermediado contatos entre o Judiciário e o crime organizado, usando sua influência na Alerj.

“É um esquema ‘unha e carne’: autoridades e facções unidas por interesses escusos”, resume um investigador envolvido.

A Operação Unha e Carne, deflagrada inicialmente em 2025, já resultou em dezenas de prisões e bloqueios de bens.

Nesta fase, foram expedidos 15 mandados de busca e sete de prisão temporária.

A PF não descarta novas etapas e colabora com o Ministério Público Federal (MPF) para aprofundar as provas. Os alvos não se pronunciaram até o momento.

A ação reforça o combate à infiltração do crime organizado em instituições, em meio a um ano eleitoral no Rio.

Jornalismo O Janelão

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